22 dezembro 2009


O FILHINHO DO PAPAI" / Publicado na coluna semanal de "Veja".

“Eu sempre achei que, se tivesse filhos, o ideal seria fazer exatamente como o filósofo francês Jean-Jacques Rousseau, que abandonou os seus num orfanato. Pais costumam ser uma influência nefasta para as crianças. Quanto mais distantes, melhor. Agora que estou esperando um filho, porém, já não tenho mais coragem de aplicar meus princípios pedagógicos. Esmoreci. Virei um pai presente e apreensivo. Pareço mais o tonto do Tony Blair do que Rousseau. Só penso e só falo no meu filho. Uma idéia fixa. Passo o dia com a mão na barriga da mãe, à espera de seus socos e pontapés. Quando vi pela primeira vez o filme Aprile, de Nanni Moretti, em que ele narra o nascimento de seu filho, achei de uma pieguice insuportável. Vi-o novamente na TV, no mês passado, e gostei muito. O filho tornou-me uma pessoa pior, mais molenga, mais acrítica. E ele ainda nem nasceu.

O maior motivo de preocupação em relação ao meu filho é a escola. Recentemente, o ministro da Educação da Itália divulgou uma pesquisa em que se dizia que dois terços dos italianos são analfabetos. Não aquele analfabetismo absoluto, de quem não sabe assinar o próprio nome, mas um analfabetismo funcional: sessenta e tantos por cento dos italianos são incapazes de compreender um texto simples. O número é assustador, considerando-se que, na Itália, a escola é obrigatória até os 16 anos e todo mundo a freqüenta. Nem posso imaginar o resultado de uma pesquisa semelhante no Brasil. Vejo os professores paulistas em greve por melhores salários e logo desconfio que muitos deles sejam analfabetos. Passei por um cartaz dos grevistas com um erro de concordância verbal. No dia seguinte, no Show do Milhão, apareceu uma professora que não sabia o que era o Apocalipse. Ganhou apenas 3.000 reais do programa. É o que ela mereceria receber anualmente. Aliás, se o governo passasse a calcular o salário dos professores de acordo com o que cada um deles ganhasse no Show do Milhão, provavelmente haveria uma boa economia para as finanças públicas.

O melhor, portanto, seria educar meu filho em casa, enchendo-o de livros, mas ele correria o risco de ficar meio isolado. A não ser que eu conseguisse ganhar tanto dinheiro nos próximos anos que ele simplesmente começasse a comprar suas amizades. Não tenho nada contra amizades compradas. São tão válidas quanto quaisquer outras. Basta ter cacife para sustentá-las. É nesse ponto que pretendo garantir o futuro de meu filho. Eu nunca dei bola para dinheiro. Desde que minha mulher engravidou, sonho em ficar rico. Quero encher meu filho de grana, para que ele possa viver na maior vagabundagem e gastar no que quiser. Se quiser perder tudo na roleta do Cassino de Montecarlo, por exemplo, que perca. No dia seguinte, cubro todas as suas dívidas. Se quiser fornecer divertimentos para todo o seu círculo de sanguessugas, que forneça. É ofensivo dizer uma coisa dessas num país de crianças miseráveis, mas meu filho me subjugou. Ele pode fazer o que bem entender. O importante é que volte de vez em quando para casa, para os braços do pai.”











3 comentários:

Felipe A. Carriço disse...

Quem é o pródigo nesta história?

Ótimo texto!

Estava Perdida no Mar disse...

Fiquei curiosa de saber quem é o pai e o filho. Adorei o texto

Mago disse...

Olá amiga! Muitas saudades, uma pena eu nãopoder entrar mais com tanta frequência. Fico feliz que está de volta com sua casinha, ao contrário de ti, ando com o blogue parado, mas é porque não tenho mais internet e aí já sabe...
Amei os t extos dele. Li o primeiro que falava do Papa e este agora. Um grande beijo Mariah e tudo de bom. BOas festas e que no próximo ano eu possa visitá-la com maior frequência. Bye, Bye