19 fevereiro 2010

"O vestíbulo da casa estava fresco como uma cripta. Mrs Dalloway levou a mão aos olhos, e, enquanto a criada fechava a porta e ela lhe ouvia o rugir das saias, sentiu-se como uma monja que volta do mundo e sente que tombam sobre sua fronte os familiares véus e a resposta às velhas devoções. A cozinheira assobiava na cozinha. Ouviu o taque-taque da máquina de escrever. Aquilo era a sua vida, e, inclinando a cabeça para a mesinha do vestíbulo, curvava-se ante a sua influência, sentia-se abençoada e purificada, e, enquanto tomava o anotador de recados telefônicos, dizia consigo que momentos como aqueles eram botões da árvore da vida, eram flores da escuridão, pensava (como se alguma linda rosa acabasse de florescer unicamente para seus olhos); nem um só momento acreditara em Deus; mas uma razão, pensou com o anotador suspenso, para agradecer, na vida diária, às criadas, sim, aos cachorros e canários, e principalmente a Richard, seu marido, no qual tudo repousava - pelos alegres rumores, pelas luzes verdes, pelo assobio da coziheira, pois Mrs Walker era irlandesa e assobiava todo dia - para agradecer-lhe por aquele secreto espírito de deliciosos momentos, pensou, erguendo o anotador, enquanto Lucy, a seu lado, procurava explicar-lhe: (Virgínia Woolf - Mrs. Dalloway)

3 comentários:

Paulo Braccini disse...

Virgínia Wolf .... clap clap clap ... aplaudindo de pé ...

bjux

;-)

Juan Moravagine Carneiro disse...

Apesar de conhecer muito pouco de Wolf...gosto da forma com quem ela consegue produzir obras intensas, com temas complexos, porém de forma sútil, calma, leve...

Luna Sanchez disse...

Urgência e doçura : gosto muito, muito! ^^

=**

ℓυηα