18 dezembro 2009

"O papa, em sua eterna cruzada antiaborto, lançou um novo alarme contra o baixo índice de natalidade dos italianos. Eu me pergunto: quem é ele para reclamar que os outros não procriam? Um dos dogmas irrenunciáveis de sua função eclesiástica não é, justamente, a renúncia a ter filhos? O senador e cineasta Franco Zeffirelli foi ainda mais longe, sugerindo que as mulheres que recorrem a abortos sejam decapitadas em praça pública. Desnecessário dizer, claro, que Zeffirelli nunca teve nem nunca terá uma mulher ou um filho. O fato é que, no mesmo período em que o papa e Zeffirelli faziam seus pronunciamentos, fui informado de que minha mulher estava grávida. O meu impulso natural, ouvindo-os, seria correr para o hospital mais próximo. O aborto é legal na Itália, graças a um referendo de 1974. Depois de refletir por alguns dias, porém, acabamos por descartar essa opção. E, em setembro, serei pai.

Eu nunca imaginei que viesse a ter um filho. A recusa da paternidade foi uma das poucas certezas que jamais questionei em minha vida. Eu detesto crianças. Muito melhor do que uma criança é um cachorro. Infelizmente, a probabilidade de que meu filho nasça igual a um basset hound é um tanto remota. Eu também ficaria satisfeito com um filho-tartaruga: toda vez que ele se agitasse demais, bastaria revirá-lo de barriga para cima, e ele permaneceria imóvel, em silêncio, sacudindo os bracinhos.

Imagino que todo pai tenha um medo danado de não gostar do próprio filho. Não deve ser uma eventualidade tão rara assim. Ter um filho, a meu ver, equivale a enfiar um completo estranho dentro de casa. É como se eu convidasse o gerente do meu banco a morar comigo e, ainda por cima, passasse a sustentá-lo. Porque nada exclui que meu filho tenha uma cabeça idêntica a do gerente do meu banco. O que vai acontecer, por exemplo, se meu filho gostar dos filmes de Zeffirelli? O que eu posso fazer para impedi-lo? E se ele tiver o desplante de desaprovar o que eu escrevo? Se não achar graça neste artigo?

A solução perfeita, para contornar esses casos, seria mudar a legislação relativa ao aborto. Na Itália, o aborto é permitido até o terceiro mês de gravidez. Eu estenderia esse prazo até o décimo quinto aniversário da criança. Seria uma arma potentí­ssima nas mãos dos pais. Farí­amos crianças obedientes e solícitas. Aterrorizadas com a possibilidade de que pudéssemos descartá-las de um momento para o outro, elas sempre fariam de tudo para nos agradar. A idéia é muito boa. O único problema seria convencer o papa e Zeffirelli sobre os benefícios da nova lei.

Por fim, minha mulher suspeita que eu tenha concordado em ter esse filho apenas porque não tinha assunto para o artigo desta semana. Parece-me um motivo tão válido quanto qualquer outro. "

Apaixonei-me por Diogo numa manhã de domingo. Foi a primeira vez que li sua coluna da Veja e, diferentemente de outras oportunidades, em vez de me indignar com seu tiroteio sem critérios, admirei nele a coragem de escrever tudo o que eu gostaria de ter dito naquele momento...pois eu também acabara de descobrir que teria um filho.
Assim como ele, nesta altura eu também não sabia que seria  a "coisa" mais importante da minha vida!
NOS PRÓXIMOS DIAS VOU PUBLICAR UMA SEQUÊNCIA DE TEXTOS DE DIOGO MAINARDI A RESPEITO DO ASSUNTO PATERNIDADE EM ÉPOCAS E SITUAÇÕES DIFERENTES...ACOMPANHEM A EVOLUÇÃO!

8 comentários:

Marcelo Mayer disse...

ele ainda continua sem critério algum. e quando um cachorro fpr mais importante que uma criança, por mais que alguém odeie, eu me mato. mesmo!

Luciana disse...

A gente tem um susto danado qnd descobre que va iter um filho...
Da medo,vontade de fugir,correr...mais não adianta né?e no final das contas descobrimos que é a coisa mais importante que poderia ter nos acontecido.

Moonlight disse...

Me perdoe...
Soberbamente indignante!
Existe maneiras e maneiras de não desejar ter um filho,normalissimo!
Mas confesso...que me indignou entre outras esta em particular;

"A solução perfeita, para contornar esses casos, seria mudar a legislação relativa ao aborto. Na Itália, o aborto é permitido até o terceiro mês de gravidez. Eu estenderia esse prazo até o décimo quinto aniversário da criança. Seria uma arma potentí­ssima nas mãos dos pais. Farí­amos crianças obedientes e solícitas. "
Mas isso é a minha opinião e cada um tem a sua!
Realmente um filho é em meu vêr,a "coisa" mais imortante da nossa vida!!!!!!!!!
Se não tiver oportunidade de cá vir antes quero lhe desejar um Feliz Natal com paz,amor,saude e tudo mais.

Bjinho cheio de luar

HBMS disse...

x) somente depois que o filho nasce é que o pai se descobre como pai.

Marcela Ohana disse...

Eu também ficaria satisfeito com um filho-tartaruga: toda vez que ele se agitasse demais, bastaria revirá-lo de barriga para cima, e ele permaneceria imóvel, em silêncio, sacudindo os bracinhos.

***

o cara eh sem criterio, mas essa frase eu rachei de rir!

sou mãe tambem, acho o diogo super ácido em seus textos, porem ele eh um bom escritor.

beeijos

João disse...

Não queria que meu filho nascesse com cara de cachorro. Mas confesso que quando ele era bebê e ficava doentinho, diversas vezes falei: precisa levar esse menino no veterinário.
Gosto do Mainardi. O papa e o Zeffirelli que se f... os 2 juntos, ao mesmo tempo, na mesma cama.

Anahita disse...

Acho que foi esquecido um pequeno detalhe...Somos filhos! agora estamos aqui dando pitaco nas informações..porque será?

Beijooo

Magridt Londrina/Brazil disse...

olá querida
passando rapidinho p agradecer a visita.
quero voltar com tempo p ler esse post.
um beijo